pensar processual, olhar orgânico

sobre goethe

Mas existe também a caracterização …. de que o goetheanismo é mais que fenomenologia, já que não fica apenas na observação sensorial. Mais do que um ensinamento dos fatos, (ele é) um ensinamento das transformações, um estudo da metamorfose. Dessa forma, o goetheanismo torna-se uma morfologia espiritual e lança as bases do entendimento da evolução de todos os seres vivos até o ser humano. (Schad, Wolfgang em “o que é Goetheanismo?”, 2019 pg 8)

Quando Troll e Schindewolf aplicam a ideia-arquétipo como real e atuante, quando Portmann expressa os conceitos de interioridade e auto-expressão no reino animal, assim como todas as vezes em que se observou a irredutibilidade da vida em meros mecanismos moleculares, podemos enxergar sua raiz no olhar de Goethe. (Schad, Wolfgang em “o que é Goetheanismo?”, 2019, pg 15)

Pelo fato da alegria sensória de Goethe, seu entusiasmo pelo mundo e a intensidade de seu interesse pulsarem num equilíbrio paradigmático com todas suas faculdades humanas, Goethe não apenas motivou incontáveis pesquisadores de modo evidente ou subjacente, como poderá seguir inspirando pesquisadores no futuro. Por isso, o conteúdo de suas contribuições é mais duradouro nas ciências biológicas do que na física, na geologia ou na meteorologia. (Schad, Wolfgang em “o que é Goetheanismo?”, 2019, pg 20)

Foi na biologia que Goethe alcançou seus maiores resultados, incontestados e consistentes até hoje, tornando-se parte essencial do desenvolvimento da biologia acadêmica. Entre eles estão:
a) Fundamentação do arquétipo comum entre o organismo humano e todos os mamíferos (redescoberta dos ossos intermaxilares);
b) Identidade comum de todos órgãos e todas modificações foliares das plantas dotadas de sementes (morfologia), e desenvolvimento temporal dos órgãos foliares num processo de tripla expansão e contração (cronobiologia);
c) Modo de olhar e pensar em metamorfoses, uma pré-condição para o pensamento evolucionário;
… Goethe possuía um olhar muito mais biológico do que físico. De fato, ele pode ser considerado o “Copérnico e o Kepler do mundo orgânico”… . (Schad, Wolfgang em “o que é Goetheanismo?”, 2019, pg 22)

Bohr, Heisenberg, Pauli e outros co-fundadores da física quântica ensaiavam juntos o Fausto de Goethe. Quando Heisenberg esteve na ilha Helgoland em 1925 por causa de uma febre do feno, e lá descobriu a base matemática da física quântica, Goethe estava ao seu lado: “mal preguei os olhos; destinei um terço do dia nos cálculos da mecânica quântica, um terço me ocupava de escalar rochas, e o outro terço aprendi de cor os poemas do ‘Divã do Oriente-Ocidente’”. (Schad, Wolfgang em “o que é Goetheanismo?”, 2019, pg 23).

Se avaliamos o conjunto da obra de Goethe, podemos chegar a uma afirmação maior: nem sempre o conteúdo de seus trabalhos científicos teve grande importância. Às vezes sim, às vezes não. O que adquiriu proporções significativas para toda uma época, numa dimensão global, foi seu olhar envolvente para com toda a natureza, foi a forma integrativa de compreender o mundo como um todo, foi a sua abordagem sempre evolutiva, isto é, olhando para tudo como um vir-a-ser. (Schad, Wolfgang em “o que é Goetheanismo?”, 2019, pg 26).

A real importância da descoberta da metamorfose nas plantas não reside na descoberta de seus detalhes, de que a folha, a corola, a coroa etc sejam órgãos idênticos metamorfoseados, mas na grandiosa arquitetura de uma lei formativa do mundo orgânico, de um conjunto vivo que se manifesta por múltiplas e entrelaçadas interações. Cada detalhe, cada etapa de um desenvolvimento vivo é determinado de dentro para fora. A grandeza desta ideia, que Goethe tentou aplicar também ao mundo animal, somente pode ser percebida se a tornarmos viva em nosso espírito, se a refizermos em nosso próprio pensar. Então percebemos que se trata da própria natureza da planta traduzida para o pensar, onde atua tão vivamente quanto atua no objeto. Percebemos também o quanto um organismo se nos torna inteiramente vivo, como perde o caráter fechado e inerte de um objeto morto. Tornando-se cada organismo um ser em constante vir-a-ser, em evolução, como expressão de eterna inquietação. (Steiner, Rudolf, a obra científica de Goethe, versão completa em alemão, volume I, pgs XIX e XX.)

Esta capacidade de rapidamente se alçar de algo específico para algo mais genérico, de conectar elementos aparentemente desconexos, de encontrar uma fórmula/lei natural para cada nuance fora do padrão, nem todo mortal possui de modo extraordinário, como ocorreu com Goethe. Ele tinha altas “sacadas” toda vez que estudava natureza, ou nas palavras dele: … reconhecia uma máxima que iluminava sua pesquisa.
Certa vez o ouvi dizer: “… deixo com que os objetos ajam (tenham efeito) sobre mim calmamente, esforçando-me em seguida a reproduzir esta ação de modo fiel e autêntico; este é o segredo do que as pessoas chamam de genialidade…”
De conversas que teve com v. Müller entre 1812 e 1832.

A demarcação de um campo do conhecimento como “fenomenologia da natureza” requer duplo enquadramento. Perante a ciência natural, terá de se destacar como fenomenologia; perante a fenomenologia, terá de deixar claro que seu foco está na natureza. (Böhme, 2000, em Schad, “o que é Goetheanismo?”, 2019, pg 23)

Goethe foi infatigavelmente destacado como um holista, sem as pessoas notarem que a vida nunca é um holon fechado, mas sempre um órgão inserido num organismo maior, por exemplo, o habitat e sua paisagem. Claro que ninguém negará a Goethe uma abordagem sempre ecológica. (Schad, Wolfgang em “o que é Goetheanismo?”, 2019, pg 19)

Quando ouço que a perpetuidade e a invariabilidade são qualidades nobres e elevadas, contrastando com a transitoriedade como sendo incompleta ou defeituosa, sinto-me profundamente contrariado. Considero ser a terra algo muitíssimo nobre precisamente pelas mudanças que nela ocorrem. (Galileo Galilei em Schad, Wolfgang, “o que é Goetheanismo?”, 2019, pg 26).

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