pensar processual, olhar orgânico

evolução

I – Percepções iniciais

Evolução é como a vida, se transforma!

Quando falamos de evolução, naturalmente pensamos em organismos vivos e suas paisagens. Mas o que são organismos? Vamos explorar algumas visões. E somar as diferentes contribuições dos evolucionistas que marcaram a transformação da visão evolucionista.

A ideia de organismo de Goethe, 1749 – 1832

Para Goethe a vida só podia se organizar na forma de organismos, uma totalidade atuante e em constante metamorfose. Ao exame das partes obtém-se a morfologia, os órgãos segmentados, que se transformam e sucedem. Porém o organismo só será apto à vida, se estes órgãos ‘funcionarem’ sustentando o organismo. Somente pela fisiologia obtém-se uma visão de conjunto.

Sejam as transformações de cada organismo, ao longo de muitas e muitas gerações, sinônimo de evolução. Sejam as transformações conjuntas de vários organismos chamadas de coevolução.

Organismos naturais, por Rosslenbroich e Schad

Para Rosslenbroich um simples unicelular já preenche a condição de organismo pelo fato de possuir uma membrana externa, que divide entre o “dentro” e o “fora”. Cada membrana define um organismo, que seleciona as substâncias que podem ou não entrar, participando de seus processos fisiológicos.

Para Schad todo organismo realiza transformações pela interação com seu entorno, por proatividade, lançando mão de recursos genéticos e epi-genéticos, que são utilizados pelo organismo vivo para se transformar e evoluir. O organismo está no comando em todas fases da evolução, ele é interativo e dispõem de um repertório para atuar, sendo seu protagonismo mais na dimensão tempo e menos na dimensão espaço. As transformações que ele provoca, em estágios, tornam-se visíveis na forma e no gesto. Enxergar a proatividade de cada organismo é condição necessária para aquisição de uma visão viva da evolução. Enxergar a simultaneidade de evoluções aparentemente isoladas, permite enxergar a coevolução.

Organizações sociais são organismos?

E organizações sociais, também são vivas? Se elas nascem, se transformam e podem morrer, sim, elas são vivas! De modo semelhante a organismos naturais, organizações sociais apresentam uma ‘vida interna’, formada de relações sociais (e suas regulamentações) em prol de objetivos acordados. Toda organização social, seja empresa ou ONG, tem uma membrana, pessoas são admitidas ou se demitem, processos e recursos são admitidos ou descartados, matérias primas, equipamentos e informações entram e saem, sendo selecionadas, modificadas, recombinadas ou recicladas sempre de acordo com a cultura da organização. No seu interior opera-se uma fisiologia social, liderada por processos de inovação.

Toda organização se mantém viva enquanto forem vigorosos seus processos internos e enquanto ela souber se transformar, antecipando-se às transformações de seu entorno. A soma destas transformações, intuídas, preparadas e realizadas coordenadamente, formam o conteúdo de uma gestão evolutiva.

Conhecer as transformações que a natureza protagonizou em sua evolução, antes de pensar na evolução de organizações, pode ser muito produtivo na renovação cultural de um empreendimento.

 

II – Evolução natural

A – Autores iniciais: séculos XVIII e XIX

visões fundamentadas na zoologia / antropologia

A1 – Jean-Baptiste Lamarck, 1744 – 1829

Pelo estudo de invertebrados (moluscos), adquiriu uma visão transformista no campo da biologia, destacando-se:

Apesar de reiteradas tentativas de se banir o Lamarckismo do palco científico, diversos aspectos de sua visão estão sendo corroborados empiricamente, trazendo de volta a noção do organismo proativo na interação com seu entorno (the organism is back on stage).

A2 – Charles Darwin, 1809 – 1882

Este grande pioneiro desenvolveu uma visão da evolução observando pequenas transformações (melhoramento do plantel de pombos e suínos/populações de aves no arquipélago Galápagos), para formular uma teoria abrangente, a chamada evolução por seleção natural:

A3 – Alfred Russel Wallace, 1823 – 1913

Apesar de coautor independente e apoiador incondicional da teoria da seleção natural, Wallace também se diferenciava de Darwin em alguns aspectos:

B – Autores mutualismo, coevolução e simbiogênese (séculos XIX, XX e XXI)

visões fundamentadas na botânica/microbiologia/citologia

B1 – Kessler (1815 – 1881), Kropotkin (1842-1921)

O zoólogo Karl Federovich Kessler introduz e antecipa partes da obra de Lynn Margulis. Muito cedo, em 1880, Kessler faz uma compilação demonstrando a ajuda mútua generalizada na natureza. Por meio de exemplos singelos, comprova ser o mutualismo muito mais presente na natureza real que a luta pela sobrevivência, que se sobressai como teoria, povoando mentes e corações.

O trabalho de Kessler teve sequência com Kropotkin, de coletou ainda mais evidências de mutualismo dentro da mesma espécie e interespecífica também. Outros autores sucederam levando até Lynn Margulis.

Outros autores reconhecem a força evolutiva do mutualismo. Ao invés de grupos ‘menos aptos’ que se extinguem, novos mutualismos emergem como fruto de co-evolução, com relações sociais intensas e duráveis.

Vida no trópico: este vem sendo um forte vetor evolutivo encontrado em biomas tropicais, especialmente das florestas per-úmidas: evoluir como conjunto, como teia de relações mutuas interespecíficas, em desequilíbrio dinâmico.

B2 – Schimper (1856-1901), Mereschkowski (1855-1921)

Andreas Franz Wilhelm Schimper foi um botânico que se destacou pela compreensão das condicionantes climáticas de cada paisagem (biogeografia). Autor do conceito ‘rainforest’ (Regenwald), Schimper postulou também a endo-simbiose dos cloroplastos, tornando-se pioneiro nesta ótica evolucionária.

Konstantin Sergejewitsch Mereschkowski fez amplos estudos sobre liquens (simbiose de fungos com algas/cianobactérias), que levaram à teoria da simbiogênese, em que células maiores e mais complexas (eucariontes) teriam surgido da simbiose entre células menores e mais simples (procariontes). Convencido da impossibilidade da seleção natural explicar as inovações biológicas, postulou que a evolução se dava pela cooperação, pela aquisição de hereditariedade a partir de amplo repertório microbiológico.

B3 – Lynn Margulis (1938-2011)

A grande contribuição desta corajosa cientista foi demonstrar o quanto a célula eucariótica é fruto da união simbiótica de primitivas células procarióticas, tornando a teoria endosimbiótica um fato mais amplamente aceito no meio cientifico. Especialmente a origem endosimbiótica da mitocôndria e de plastídeos, pela internalização de organismos originalmente independentes, marcou a ampliação do olhar biológico:

C – Autores do Goetheanismo: séculos XX e XXI

C1 – Wolfgang Schad (contemporâneo)

Por um lado, W. Schad revisou a obra de Goethe, relevando o caráter germinal de seu evolucionismo. Também elaborou a forma e o comportamento de animais mamíferos como resultado de forças arquetípicas configuradoras. Por outro, re-examinou diversas evidências antropológicas e paleontológicas, buscando uma visão atualizada sobre a evolução dos seres humanos, introduzindo um novo olhar:

– Não deveríamos nos fixar numa “árvore genealógica”, pois as formas finais de cada espécie (vivas atuais / paleontológicas) não são aquelas que deram origem às novas formas, as transformadas. É preferível visualizar a metamorfose da planta como imagem símbolo da evolução: somente ao nível das “vias germinativas” (brotação, estágio germinal) é plausível que tenham ocorrido as transformações que levaram à formação de uma forma final modificada. Pois de uma forma final a outra, a transformação é possível apenas mentalmente, assim como de uma extremidade a outra, na árvore genealógica.

– A teoria da evolução natural de Darwin cobre as evidências apenas da micro-evolução (pequenas alterações morfológicas), ao passo que a simbiogênese, a transferência lateral de genes, é hoje a melhor explicação para as grandes transformações da macro-evolução (surgimento de filos, classes e ordens novos).

– É frequente e até recorrente que os grandes passos evolutivos de um grupo de seres vivos comecem pelos “membros”, porções morfológicas mais próximas do entorno (ambiente). Sendo que a transformação finaliza seus processos, após sucessivas modificações, nas porções mais internalizadas, no sistema “neuro-sensorial”.

– Assim foi, por exemplo, o processo de humanização dos hominídeos (precursores de humanos mais recentes), começando pela modificação de pés e mãos, passando por braços, pernas, bacia, coluna vertebral, até chegar ao sistema neuro-sensorial e ao cérebro, cujo tamanho relativo cresceu apenas no terço final de todo caminho evolutivo até aqui.

C2 – Andreas Suchandke, 1933 – 2014

A visão evolutiva de Suchantke desenvolveu-se como continuidade do olhar orgânico de Goethe, encorpado pelas descobertas cientificas do século vinte:

– O papel ativo do mundo vegetal na formação dos solos sobre os quais atuam numa sucessão sinecológica, assim como na criação e manutenção do clima em que vivem; evidenciando haver uma via de duas mãos: vegetais são intimamente influenciados pelo ambiente e ao mesmo tempo formadores do mesmo. Uma pro-atividade surpreendente destes seres aparentemente tão passivos.

– A caracterização dos vegetais como seres absolutamente conectados e inter-relacionados com seu entorno, formando um só organismo: a paisagem!

– Igual relação de insetos e aves com seu entorno, como constatado nas camadas e dosséis da floresta tropical: quanto mais elevado o estrato-habitat de uma espécie esvoaçante, mais colorida é seu desenho nas asas, sua penugem.

– A inversão que ocorre quando comparamos animais com vegetais: nos animais o centro está em seu interior, em seus órgãos vitais; nos vegetais o “centro” de sua existência está na periferia, em duas esferas: na esfera de luz, calor e de gases do seu cosmo próximo e por outro lado na esfera mineral/biosfera de seu solo.

– A firme dedicação à metamorfose na natureza, como singular exercício de ampliação da visão cognitiva do mundo vivo.

– Com exemplo didático das transformações morfológicas as quais uma planta é capaz, veja-se o caminho evolutivo das cactáceas rumo ao deserto, transformando seu tronco em órgão de reservas hídricas e assimilação (verde como uma folha) e atrofiando as brotações (hastes novas e folhas) em espinhos. Assim como as metamorfoses que se sucedem no caminho de volta que as cactáceas fizeram do deserto à savana e à floresta perúmida, assumindo feições de lianas e epífitas.

C3 – Bernd Rosslenbroich (contemporâneo)

Diferente da visão evolutiva clássica, que se limita em atestar melhor adaptação e aumento da biodiversidade, a visão evolutiva de Bernd Rosslenbroich se caracteriza pela busca de vetores somadores, tendências qualitativas que possam expressar ganhos que tenham ocorrido ‘de uma esponja até um chipanzé’. Esta busca por padrões qualitativos nos ganhos evolutivos levou o autor a reexaminar o vasto acervo de observações dos mais diversos autores, mas a partir de uma nova perspectiva:

Olhando para esta complexidade, será importante que a biologia desenvolva ainda mais um olhar sistêmico-integrativo para todos organismos, superando a unilateralidade do pensamento reducionista. O pensamento biológico teria que se tornar “orgânico-organísmico”, para abarcar as reais propriedades da vida.

D – The third way of Evolution / séculos XX e XXI

Alguns autores abertos a uma ‘evolução da ótica evolucionista’ uniram-se num site chamado de 3a via do evolucionismo (the third way of evolution).

“Muitas pessoas acreditam haver apenas duas formas de se explicar a origem da diversidade biológica. Uma destas formas é o criacionismo, a intervenção de um ser divino e criador, arbitrário e sobrenatural. A outra forma é pelo neo-darwinismo, o qual, apesar de ser científico, ignora as evidências (moleculares) contemporâneas, invocando um conjunto de pressupostos mal-embasados para sustentar a natureza randômica (acidental) da variabilidade hereditária. O neo-darwinismo ignora importantes processos de evolução rápida, tal como a simbiogênese, transferência horizontal de DNA, ações de DNA móvel e modificações epigenéticas. Pior ainda, alguns neo-darwinistas levaram a seleção natural à condição de ‘única força criativa’ que resolve as mais difíceis questões evolutivas sem fundamentação empírica real. Muitos cientistas enxergam, hoje em dia, a necessidade por uma exploração mais ampla e profunda de todos aspectos da evolução.” https://www.thethirdwayofevolution.com

E – Contribuições a partir da Ciência Espiritual

Rudolf Steiner, 1861 – 1925

Para R. Steiner, a visão do mutualismo na natureza como força evolutiva é uma preparação para a iniciação espiritual de qualquer ser humano. O contrário, uma visão apenas dos aspectos materiais, baseada na luta pela sobrevivência, seria um impeditivo à iniciação espiritual (GA 054).

Steiner chega à conclusão que as espécies mais aptas são aquelas que conseguem cooperar mais umas com as outras. Ao invés de grupos ‘menos aptos’ que se extinguem, novos conjuntos mutualísticos, com relações duráveis, surgiriam a partir da intensificação das relações sociais (GA 054).

Seria esta uma visão de futuro que aponta para economia associativa? Para as organizações que hoje se fortalecem associando-se a outras?

 

III – Evolução de organizações

A questão é: o quanto uma organização se mantem apta a evoluir? Qual é sua real disposição de se transformar em tempo hábil, no ritmo que a evolução natural e social demanda?

Manter uma organização vibrantemente viva, demanda mais do que ter sucesso no curto prazo. A médio prazo, é preciso saber se transformar em tempo hábil, antecipando-se às transformações da evolução social e natural. A longo prazo, a condução das transformações, intuídas, preparadas e realizadas, formam o conteúdo de uma gestão dedicada à evolução.

Nem toda organização pode manter um setor de pesquisas, um ‘departamento do futuro’. Mas sempre é possível trabalhar a postura e enriquecer o olhar de suas lideranças, para que aprendam a navegação evolutiva. Este aprendizado demanda tempo, é necessário passar por algumas experiências, reelaborar as percepções.

Posturas evolutivas

Tais posturas ou disposições precisam ser exercitadas para serem apropriadas. Não se trata de uma teoria conceitual e sim de uma iniciação pelo exame continuado da evolução de plantas, animais e paisagens. O que a vida realiza em milênios não se consegue condensar em poucos conceitos, nem poderá ser compreendido em alguns minutos. Mas estará ao alcance de todos que se dispuserem a exercitar, repetidas vezes, olhando e elaborando as transformações que a vida é capaz de realizar.

Capacidades vitais

Aos poucos, este exercício desenvolverá capacidades vitais à evolução:

Autor: Manfred v. Osterroht

manfred@hollon.com.br

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