pensar processual, olhar orgânico

A necessária Metamorfose da Agricultura Biodinâmica Européia ao Trópico e Sub-trópico

1. Considerações preliminares

Quando em 2014 recebi o convite para escrever um artigo para revista da SAB, contribuindo com minha visão sobre uma agricultura tropical inspirada na Antroposofia, aceitei com alegria, mesmo sabendo que o tempo era curto e que não daria para escrever tudo. Segue uma versão revisada do mesmo texto, já que na revista coube apenas uma versão reduzida. Proponho aos mais interessados que leiam o texto mais de uma vez, para que o incomum possa ser assimilado. As reflexões começam no universo da agricultura biodinâmica e terminam com uma nova visão, emancipada da primeira. Segue o texto original com algumas atualizações.

2. Introdução

Como sabemos, Rudolf Steiner é o iniciador, o inspirador da agricultura biodinâmica. Suas recomendações para renovação da agricultura foram dadas em 8 palestras, em pentecostes de 1924. Para tudo que dizia, recomendava aos presentes que fosse experimentado, adaptado às condições de cada local. E assim foi feito, depois de tudo experimentado se deu o nome ao método de Bio-dinâmica. Estes textos sempre foram para mim preciosa fonte de inspiração.

Por outro lado, precisamos nos dar conta que Rudolf Steiner nunca foi ao trópico. Mas foi certamente o maior goetheanista depois de Goethe. Em suas palestras encontrei diversas visões que me ajudaram na compreensão da natureza tropical. Porém, o mundo físico e natural que conheceu limitava-se à Europa (pouco mais que central). Quando recomendou as práticas da Agricultura Biodinâmica, o fez olhando para uma edição da natureza, as paisagens compreendidas entre a Inglaterra e a Transilvânia (Romênia). Cabem, por isso algumas perguntas:
1. O que teria ele recomendado, caso olhasse a paisagem tropical?
2. De que maneira deve-se metamorfosear aquilo que recomendou no curso agrícola, contemplando não mais as paisagens da Europa Central, mas a luminosa, ardente e (muitas vezes) húmida Terra Brasilis?
3. Como recriarmos a compostagem, os preparados biodinâmicos e a integração entre lavouras e gado bovino quando estivermos na Mata Atlântica ou Amazônica, no Cerrado ou na Caatinga, nas zonas costeiras, dos cocais e no Pantanal?

Neste artigo, serão elaborados alguns fundamentos, numa proposta de metamorfose, reunindo argumentos e evidências que foram elaborados fenomenologicamente nas paisagens de todo Brasil. Não pretendo senão formular conteúdos que possam dar suporte e apontar rumos para esta metamorfose. Jamais pensei em esgotar qualquer aspecto. Gostaria mesmo de iniciar um debate, para afrouxar a mesmice e abrir brechas rumo a um futuro mais criativo.

3. Diagnóstico inicial: onde, em nosso Brasil, a biodinâmica se estabeleceu melhor?

Esta questão é importante para não sermos injustos com a edição européia da agricultura biodinâmica no Brasil, trazida para cá e desenvolvida com enorme esforço e amor por dezenas de lideranças, pelas quais cultivo a mais sincera gratidão. Vejamos …

Após 45 anos de intensos esforços, podemos dizer que a agricultura Biodinâmica no Brasil se desenvolve em duas frentes principais: (i) em determinadas regiões em que simplesmente deu certo e (ii) em empreendimentos ávidos pela certificação Demeter por razões comerciais. Examinando a primeira frente, encontramos pronunciada concentração nas seguintes regiões e respectivos cultivos:
• No alto da cuesta de Botucatu, hortaliças, medicinais, gado de leite e frutíferas temperadas.
• Pela Mantiqueira, hortaliças, medicinais, gado de leite, frutíferas temperadas, café e oliveiras.
• Na Alta Mogiana até o alto de Franca, com café, hortaliças, gado leiteiro e fruticultura.
• Na chapada Diamantina, com hortaliças, café e gado.
• Serras/planaltos catarinense/ gaúcha, hortaliças, frutíferas de clima temperado, uva e gado.
• Em algumas baixadas do Rio Grande do Sul, com arroz irrigado e gado/búfalos.

Percebemos facilmente que as regiões de maior florescimento do impulso biodinâmico são regiões de altitude, e/ou regiões do sul do país, de clima ameno ou subtropical de altitude e mais parecidas com o clima temperado. O que não é pouco. Ainda bem que estes impulsos existem e se desenvolvem. Pois desta forma é mantida acesa a chama de importantes ideais. Mas mesmo sendo assim, sinto-me desafiado. Apreciarmos estes resultados tão positivos é importante para sermos justos com a edição europeia da agricultura biodinâmica no Brasil, trazida para cá e desenvolvida com enorme esforço e amor por dezenas de lideranças, pelas quais cultivo a mais sincera gratidão.

É de se constatar também, que dificilmente vemos a agricultura biodinâmica florescer em regiões tipicamente tropicais, como no Vale do Ribeira, nas baixadas fluminense e catarinense, no Pantanal, Pontal do Paranapanema, Triângulo Mineiro, em Goiás, Mato Grosso, ou no sul da Bahia/norte do Espírito Santo. Para não falar no grande norte e nordeste deste imenso Brasil, onde há sim impulsos importantes, mas sempre de curta ou média duração, sempre dependentes de um idealizador-mecenas (injeção de capital de uma grande empresa). Não constatamos que o enraizamento da Bio-dinâmica na prática do agricultor seja vigoroso. Ficando a impressão de que ainda não vingou o que podia, não harmonizou com o trópico.

Esta distribuição geográfica nos fala uma linguagem clara, não podemos mais adiar certas questões: será que fizemos o suficiente? Digo, nós, as lideranças que trouxemos a agricultura biodinâmica ao mundo, em nosso querido Brasil. Não estaríamos finalmente maduros para arriscar algo maior, para reunir nossas forças, pesquisar mais e melhor, fazer as grandes metamorfoses que permitem recriar a agricultura biodinâmica para o trópico e subtrópico? Tal como a planta que se metamorfoseia completamente de uma região para outra, em resposta às mudanças do ambiente, de novas plantas companheiras, de outros animais. Mas primeiro precisamos ter certeza quanto à necessidade desta causa.

4. Por que a medicina e a educação antroposóficas deram mais certo?

Um olhar ingênuo sobre os reinos mineral, vegetal, animal e humano, nos revela estágios crescentes de emancipação. O animal emancipa-se do ambiente, podendo mover-se pelo espaço, enquanto a planta permanece enraizada, movendo-se mais no tempo e em íntima relação com seu entorno. Podemos ilustrar a emancipação animal pelo urso, que pode viver no clima ameno e temperado, mas também vive no gélido ártico, mantendo o calor de seu corpo e de sua cria mesmo quando, hibernado, dá a luz aos filhotes no mais profundo inverno. É uma grandiosa emancipação. Ainda mais emancipado que o urso (ou qualquer animal) tornou-se o ser humano, cujas pernas permitem múltiplos exercícios, realizando proezas de uma cabra montanhesa (alpinismo), de um peixe (natação e mergulho), de uma gazela (maratona), de um búfalo (sumô) e de uma jibóia (wrestling), sempre de acordo com suas escolhas e sua motivação. Se falarmos das diversas artes, como balé, dança, euritmia e ginástica Bothmer, então a emancipação será ainda maior.

Oras, isto quer dizer que o ser humano é tal como ele é em qualquer lugar do planeta, e que o cardiodoron, (remédio da Weleda), pode ser usado para fortalecer o coração de um japonês, lapão, australiano ou brasileiro. Sim, apesar das sutis diferenças entre povos, regiões e culturas, a Medicina Antroposófica e a Pedagogia Waldorf precisaram apenas ser adaptadas levemente para enraizar nas mais diferentes culturas – graças à emancipação mais completa do ser humano. Por outro lado, as plantas são seres completamente dependentes e entregues ao seu entorno. Podemos dizer que a paisagem, com suas rochas, os solos e as comunidades vegetais (habitadas por animais) forma organismos completamente abertos, não-emancipados, integrados com o clima e as forças da natureza de cada região. Cada paisagem se diferencia da outra de tal maneira, que já não consigo conceber a simples transferência de um preparado biodinâmico, concebido em região onde os cervos comem a casca de carvalho e o dente-de-leão, para uma região onde o tucano se alimenta do coquinho da jussara, o tamanduá se deleita com as saúvas e o peixe-boi pasteja a flora submersa dos alagados do amazonas. Urge reconcebê-las, as práticas agrícolas orientadas pela antroposofia, mantendo o espírito inovador de Rudolf Steiner. Devemos agir com cautela, mas temos que encontrar a coragem de ao menos começar. Iniciemos olhando para a natureza tropical pelo olhar orgânico de Goethe, compreendendo os sinais e gestos de suas plantas (botânica arquetípica).

5. A Natureza Tropical comparada à Natureza do clima temperado.

Quem já viajou à Europa ou aos Estados Unidos e por lá passeou, conheceu singelos bosques de olmos e faias, de carvalhos e freixos, com sub-bosque aberto, de acesso fácil, gostoso de passear. Encantadores em sua simplicidade e mansidão. Já uma incursão em mata tropical logo se transforma em aventura: um denso sob-bosque, composto de jovens árvores, lianas, de arbustivas e herbáceas, ocupa cada volume disponível deste vibrante organismo tropical, dificultando a passagem. A ponto de precisarmos de um mateiro a abrir uma trilha com seu facão, que semanas mais tarde já terá se fechado pelo vigoroso crescimento desta orquestra vegetal. Lá, no clima temperado, encontramos poucas dezenas de espécies arbóreas; aqui, no trópico, são dezenas de milhares! E o mateiro, se for bom conhecedor, irá nos apontar uma mais diferente da outra, durante todo caminho. O trópico não conhece a repetição, dá sempre um jeito de compor novas comunidades vegetais (com os respectivos animais) em cada porção da paisagem. Uma evolução ainda mais compreensível se olhada pela ótica de Lynn Margulis, que inovou concebendo a evolução pela endo-simbiose.

6. A Evolução Vegetal (e animal) do Circulo Polar rumo ao Trópico.

Se observarmos atentamente a vegetação da Tundra, por exemplo, veremos um estrato herbáceo mais ou menos denso, pastejado pela rena, entremeado de alguns arbustos e algumas poucas arboretas, via de regra coníferas (pinheiros). Acima disto apenas o céu, o cosmos, com um sol esmaecido e nada quente. Viajando do circulo polar ao clima temperado, passamos pelas imensas florestas de pinheiros, de uma Finlândia, por exemplo. É como se a natureza vegetal apontasse para o sentido da Evolução: com um pouco mais de calor, o passo certo a ser dado é evoluir de erva para árvore, passando pelas touceiras e os arbustos. Vejam o que o goetheanista Steiner diz sobre esta força evolutiva: “em cada planta vive a vontade de se tornar árvore”.

As recém descritas florestas lati-foliadas da Europa Central, formam estação intermediária rumo ao trópico. Não importa se neste caminho aparecem desertos, estepes e savanas, quando houver o casamento do aumento do calor com chuvas cada vez mais abundantes, os bosques latifoliados se transformarão em florestas cada vez mais biodiversas até culminarem no “inferno verde” de uma bacia do Congo, situada ao redor do equador. Biodiversidade é portanto expressão da determinação do mundo vegetal em formar comunidades, cirandas de companheirismo cada vez mais densas e interconectadas, complexas, muito estáveis na medida em que são dinâmicas. Eis a poesia da natureza. Agora olhemos para a prosa dos homens.

7. O Pensamento Agronômico de Liebig, reaparece em Steiner e predomina até hoje.

Ernst Becker, saudoso professor de Biodinâmica no Dottenfelderhof, na Alemanha, costumava relatar como teve a oportunidade de conhecer livro a livro, toda a parte da biblioteca de Rudolf Steiner sobre agricultura. Relata que antes de dar o curso agrícola, Steiner havia se atualizado, havia lido tudo que estava sendo publicado sobre agricultura em sua época. Ou seja, havia lido dezenas de obras escritas por … agrônomos … todos fortemente influenciados por Liebig, o “agrônomo primordial” – que foi o descobridor da absorção de elementos minerais pela planta, definindo quais deles são essenciais e publicada como a “Lei do Mínimo”. Desde então fala-se muito na Nutrição Mineral das Plantas. Sua obra, apesar de fundamental e verdadeira, é altamente parcial, desconsiderando a nutrição vegetal pela fotossíntese e seus desdobramentos fisiológicos. Até hoje a fotossíntese interessa mais aos biólogos. Assim os agricultores, por um século e meio, acostumaram-se a olhar apenas a (suposta) nutrição pela raíz.

Tanto foi agronômica a abordagem de Steiner, que ele próprio coloca como uma questão central de suas palestras, a questão da adubação. É maravilhoso como ele faz jus à cultura contemporânea de tecnificar a agricultura, dando magnífica resposta a partir da ciência espiritual, para o “adubismo” agronômico nascente. Steiner alcança novo patamar para a adubação, a descreve como provedora de forças vitais e ordenadoras. A partir de um pensar cósmico e integrador, propõem um novo significado para o ato, para o verbo adubar: adubar é vivificar o solo, é fortalecer a vida do solo com adubos orgânicos e os preparados biodinâmicos, sendo estes ordenadores homeopáticos da relação nutrientes-planta-forças cósmicas. Justo e certo, necessário e maravilhoso … para o clima temperado e adjacências (países escandinavos, deserto do Egito, Nova Zelândia, Canadá e Chile, por exemplo)!

Assim nascem os preparados biodinâmicos, criados para fortalecer a fisiologia vegetal, os processos organizatórios da vitalidade vegetal integrada ao seu ambiente. A introdução destes compostos alquímicos nos ritmos do organismo agrícola, sempre foi feita com base na ótica agronômica: fortalecer as relações solo-planta. Apenas um preparado (chifre-sílica), entre oito, é dedicado às folhas, às relações da planta com a luz e um segundo (valeriana) é dedicado à corporalidade calórica, visando a floração. Em clima temperado isto é suficiente, é efetivo, como mostra o saudável desenvolvimento da agricultura biodinâmica no hemisfério norte. Em 1988 havia 1000 propriedades biodinâmicas na Alemanha e “apenas” 270 escolas Waldorf. Quase quatro agricultores para cada escola. No Brasil de 2014 tínhamos mais de 70 escolas Waldorf e menos de 70 agricultores biodinâmicos, que o sejam de coração e não para obter a vantajosa certificação Demeter. Em 2018 já são mais de 250 escolas, num ritmo de 1 escola nova a cada 15 dias. Como avaliar o lento desenvolvimento da agricultura biodinâmica no Brasil?

Podemos concluir que o modelo europeu de biodinâmica não tem sido compreendido e reproduzido no Brasil, como se esperava há 40 anos quando aqui chegou. Entendemos ter chegado a hora de ousarmos empreender sua transformação num novo método que possa, inclusive, enfrentar as mudanças climáticas.

8. Uma exagerada polaridade de Química X Alquimia.

Até recentemente, na atual agricultura orgânica e biodinâmica, a teoria mais difundida e aplicada é a da “trofobiose”, de F. Chaboussou. Propõem um equilíbrio na absorção de nutrientes pela planta como condição necessária à manutenção da saúde vegetal. Novamente temos aí a ótica predominantemente agronômica, o foco está nas relações solo-planta. Trata-se de teoria simples, causal, bioquímica e fácil de entender. Por estar de acordo com o cientificismo atual, pertence à nossa época materialista e combina perfeitamente toda tecnologia de insumos.

Diante da trofobiose, as teses da agricultura biodinâmica europeia adquirem um caráter alquímico, uma feição mística e por demais abstrata, atraindo todo tipo de convicções espiritualistas e deixando de ser algo prático, uma tecnologia para o dia-a-dia do agricultor tropical, afastando-se infelizmente do espírito pelo qual foram concebidos. Admiro a coragem de todos aqueles que aplicam os preparados no dia-a-dia de suas lavouras, não se importando com críticas e dissidências. Porém também podemos olhar para o atual momento como sendo uma porta para o futuro: se permanecermos no atual estágio, corremos o risco de não sermos mais compreendidos, perdendo algo muito precioso: a contemporaneidade.

Prova de que assim não precisa ser, encontramos na valorosa inovação de René Piamonte, pesquisador biodinâmico, que concebeu o chamado coquetel de adubos verdes. Este sim é praticado (há muitos anos e por todo lado) e depois relembrado e divulgado espontaneamente pelos agricultores, pois seu arquétipo conectado com a realidade tropical, “imitar a biodiversidade da floresta”. Por tornar-se compreensível para agricultores mais simples, ele encanta e convence os corações. Mesmo sendo assim, após algum tempo, muitos agricultores deixam de praticá-lo, preferindo a compra de adubos orgânicos ensacados ou de resíduos agroindustriais orgânicos. O espírito comercial, voltado ao mercado e à fortuna pessoal, os faz retornar à compra de insumos. Falta-nos (em todas agriculturas) a força de levá-los a um pensar-olhar processual; é preciso afastar-se da receita e dos modelos herdados: pois para um olhar externo, na Biodinâmica, a preparação dos preparados e do calendário astronômico também segue receitas prontas. Aplicamos as mesmas receitas de norte a sul, num país de dimensões continentais, que certamente demanda variações na tecnologia aplicada em cada região.

Pois então, o que podemos fazer, por onde começar um novo caminho? As respostas a esta busca, eu as encontrei nas plantas, na Botânica Arquetípica, nas discretas manifestações de seu cultivo, nas suas metamorfoses em diferentes regiões. Olhemos pois, para o ser planta, sempre um mestre de todos agricultores.

9. A outra nutrição vegetal, de Goethe a Goetsch, passando pelos descobridores da fotossíntese

O descobridor da metamorfose das folhas e das plantas, Johann Wolfgang von Goethe, após observar milhares de plantas durante décadas, chega à conclusão: “a planta é só folha, para frente e para trás”. Nisto ele se referia aos aspectos anatômicos, à organografia de folhas, espinhos, flores, frutos e sementes. Sabia muito pouco da fotossíntese, e as noções de fisiologia de sua época eram incipientes. Mas o seu olhar orgânico lhe dizia que o protagonismo na planta era das folhas e não das raízes. Nisto teve o consenso em uma citação de Steiner, que em certo momento diz: “a nutrição mineral pela raíz equivale às percepções sensoriais. Não é nutrição.” A nutrição verdadeira, como descobririam diversos pesquisadores do final do século 19 ao início do séc. 20 (de Julius von Sachs a Daniel Israel Arnon), é realizada pela fotossíntese ou assimilação, a geração de carbo-hidratos no parênquima foliar, mais precisamente nos cloroplastos, transformando o gás carbônico do ar em açúcares e seus derivados, sob a ação da luz, na presença de calor e pela passagem da água (enriquecida de sais minerais). Um verdadeiro milagre e expressão magistral do atuar das forças formadoras, do corpo vital da planta.

Cabe aqui um olhar sóbrio e prático sobre os processos essenciais da planta, como ela cresce, vigora e frutifica. Um pequeno exercício de botânica arquetípica. O que os leitores diriam se lhes fosse perguntado: o que afinal enche os frutos de uma planta? De onde ela obtém a matéria que consumimos como rabanete, mandioca, milho verde, café, cacau, laranja, banana, arroz, trigo, manga e tantas outras? Muitos responderão que ela os produz a partir dos adubos que lhe fornecemos no solo. De preferência adubos orgânicos/biodinâmicos, não é mesmo? Mas isto é um engano, pois em média apenas 1,6% da matéria vegetal provêm do solo, é de origem mineral. Todo restante a planta obtém do cosmo, inclusive o nitrogênio que circula pelo solo, mas é de origem atmosférica. Em média, 98,4% do corpo físico de uma planta provém da atmosfera que a circunda, somando o gás carbônico, a luz do sol, o calor ambiental e a água das chuvas que passa por ela. Para se alimentarem, plantas praticam a arte de colher o sol … então por que tanta ênfase na adubação e na terra? A resposta é simples e serve de alerta: por que o olhar para a raiz nos foi legado pelos agrônomos europeus e nós o reproduzimos de geração em geração. Para mudar o ponto de vista, basta lembrarmos que uma saborosa banana é enchida a partir de uma deliciosa seiva doce, elaborada pelas folhas, prodigiosos painéis verdes a realizar esta misteriosa arte que chamamos de fotossíntese. Simplesmente o coração da planta e sustentáculo de toda vida nesta terra.

Que a nutrição principal acontece nas folhas é tanto mais verdadeiro, quanto tropical for o cultivo. Façamos uma comparação: os nutrientes minerais necessários à produção de batata-doce X nutrientes necessários para produção da batatinha (andina). Todos sabemos que diversas regiões andinas tem um clima temperado a frio, semelhante ao clima temperado europeu; por isso algumas plantas andinas tão facilmente se adaptaram à agricultura europeia que logo a batata andina (ou batatinha) passou a se chamar de batata inglesa, hoje símbolo do fast-food. Já a batata-doce, também originária dos andes, evoluiu espalhando-se pelas terras baixas do trópico, passou a fazer fotossíntese imersa em maior calor, com uma precipitação mais elevada e por vezes à meia sombra das clareiras. Ambas fazem parte da mesma ordem, Solanales. A batata-doce evoluiu tanto que constituiu nova família, as convulvuláceas. Oras, é conhecido que o cultivo da batatinha consome toneladas de adubo, ao passo que o cultivo da batata-doce pode ser feita com adubações moderadas. A doce tem produtividade biológica muito acima da andina por razões evolutivas. Ou seja, a dôce batata tropical é expressão de uma evolução rumo ao predomínio dos nutrientes cósmicos: água, luz, ar e calor. E apesar de tantas vantagens esteve confinada ao slow-food. Mais recentemente tornou-se protagonista.

Finalmente compreendemos que o processo central de toda planta é a fotossíntese, e que ele se exalta ainda mais no trópico … e portanto, uma agricultura tropical com espiritualidade deveria fortalecer e equilibrar este importante processo fisiológico. Ao invés da máxima biodinâmica europeia, que “adubar é vivificar o solo”, já podemos nos perguntar se no trópico não deveríamos dizer “adubar é dar suporte à alimentação cósmica da planta pelas folhas, é fortalecer sua fotossíntese”. Isto pode ser feito equilibrando-se a transpiração da planta, otimizando a residência da água em cada lavoura, dosando a humidade relativa ao ar, a qualidade e a quantidade de luz (direta ou filtrada) e buscando locais com inverno ameno! E o solo, o húmus e a camada fértil do solo? Continuam sendo importantes, mas como suporte à fotossíntese, tornam-se coadjuvantes pela capacidade de retenção de agua.

Focar na fotossíntese também é premissa para se entender a incrível produtividade das agroflorestas de Ernst Goetsch no sul da Bahia. Mas este é um capítulo à parte, que demandaria outro texto, para ser devidamente desenvolvido.

10. O cultivo de diversas plantas tropicais: novas evidências

Para nos certificar da validade deste novo enfoque para a nutrição vegetal, devemos investigar a natureza tropical de diversos cultivos, comparando suas manifestações arquetípicas. São sempre as plantas, elas próprias, que apontam o caminho. Vejamos alguns casos:

Palmito juçara (Euterpe edulis) só pode ser adubado com luz! Isto mesmo, em extensas pesquisas que realizou sobre a produção de palmito, o pesquisador Walter Cromberg fez de tudo para melhorar a produtividade da juçara que crescia na mata atlântica: adubou e irrigou, conforme a lógica agronômica, e obteve ZERO de aumento de produtividade. A única resposta favorável ele obteve quando o sombreamento sobre as copas do juçara foi sendo gradativamente reduzido: as plantas responderam ao aumento de luminosidade com aumento de produção.

IMAGEM 1 : juçara

Sua prima distante, a pupunha (palmeira amazonense), precisa ser adubada com calor! Isto mesmo, a pupunha de origem amazonense, quando é plantada no estado de São Paulo, atrasa seu desenvolvimento em função do frio – e também da má companhia da braquiaria. Segundo o pesquisador Lino Rios Fúria, no Pará ela produz palmito em 9 meses, com zero de adubação, em São Paulo produz um creme menor e sofrido, em 2 anos e meio de cultivo e sob adubações pesadas. Portanto, plantas tropicais respondem à diminuição de calor, diminuindo a produtividade, deixando claro que o calor, para elas, não é mera energia, é nutriente essencial para seus processos vitais!

Já a cereja das antilhas: a acerola, vive de sol, calor e água; isto mesmo, ela prefere (quase) nenhum adubo. O cultivo da acerola no nordeste brasileiro é bem ilustrativo. Cultivada em baixadas costeiras, produz muito mais do que em locais de serra ou planalto. Mas quando na baixada recebe as mesmas adubações que recebia na serra, vegeta excessivamente ficando “obesa”, floresce de menos e temos que efetuar podas drásticas para diminuir a copa excessiva. Ou seja, quando esta planta centro-americana encontra luz e calor em proporções adequadas, além de ser suficientemente irrigada, precisa só de um cheirinho de adubos orgânicos para vegetar, florescer e frutificar equilibradamente.

Ainda precisamos dar o devido valor ao sucesso do cultivo de legumes e hortaliças em estufas. Sabemos, por exemplo, que o tomate aprecia muito quando as temperaturas ficam entre amenas e quentes, pedindo de 15 a 20 graus centígrados noturnos e entre 21 e 30 graus diurnos. Podemos proporcionar este conforto térmico ao tomate pelo cultivo em estufas, isto é conhecido. O que é novo e precisa ser re-concebido, é aceitar o calor como nutriente essencial para qualquer planta, sem rebaixá-lo à condição abstrata de energia. As plantas “comem” o calor como nós comemos uma refeição, o calor é sim um nutriente, apenas mais rarefeito que a matéria física, mas constituinte direto de sua corporalidade vital e física. Nas plantas o calor (+ luz + seiva bruta + gás carbônico) se transforma em matéria pelo processo gerador da fotossíntese.

11. Por que a irrigação é a mais efetiva adubação?

De antemão, precisamos aprender com as paisagens naturalmente irrigadas. Podemos nos dar conta do caráter inundatório da grande bacia amazônica, um enorme mar verde com várzeas, restingas, igapós e terra firme. E do significado de tanta água para a fisiologia das plantas amazônicas. Da ótica apresentada até aqui, ninguém duvida que a combinação de chuvas abundantes, (praticamente o ano todo) com calor quase constante, formam o principal alimento da gigantesca hiléia. Mas também na bacia do pantanal temos uma configuração de relevo em que a água não sabe para que lado corre; somado ao calor de uma altitude por vezes abaixo do nível do mar, temos a aliança de água+calor que triplica o vigor e o tamanho de árvores que no cerrado são humildes arvoretas. Em ambos os casos temos uma vegetação exuberante crescendo sobre solos tropicais ácidos e pobres em nutrientes. Uma demonstração clara de nutrição cósmica, gerando alta produtividade, fitossanidade e o sustento de uma fauna magnífica. Agora sim temos algumas evidências e podemos confiar na força nutritiva dos fatores cósmicos; sim, as plantas tropicais evoluíram rumo a uma emancipação crescente do solo mineral e se nutrem principalmente de luz, de água, do ar quente em que estão imersas e do cosmo estelar. Olhemos para alguns exemplos da agricultura.

Todos sabemos que o arroz é cultura tropical de dupla aptidão. Ele pode ser cultivado em terra firme, produzindo em torno de 1.750 Kg/ha de cereal, ou pode ser cultivado em tabuleiros inundados, no lodo, produzindo até mais que o triplo, entre 5 e 15 mil Kg/ha, em alguns casos sem um grama de adubo adicional. Isto se deve à incrível capacidade deste cereal de crescer com seu colo e suas raízes imersos na água, transpirando e assimilando sem cessar. Além de sua prodigiosa capacidade de perfilhar, de soltar vários colmos de uma soqueira só. O que provoca este espantoso aumento na produtividade não é um adubo, ou certos nutrientes do solo. É a alta disponibilidade de água permitindo uma constante e equilibrada transpiração. Enquanto a planta transpira ela ao mesmo tempo faz fotossíntese e o arroz irrigado a faz o dia todo, ininterruptamente; por isso é tão produtivo, superando qualquer outro cereal. Mais do que isto, ele é exemplo de uma agricultura milenar, realmente sustentável, imagem símbolo das paisagens do sudeste asiático.

Então quando faltar água para uma planta ela para de assimilar, de se nutrir do cosmo? Isto mesmo. A passagem da água, de forma harmoniosa e constante, da raiz às folhas, é o paraíso para as plantas, literalmente. É conforto fisiológico, é saúde e produção, pois permite otimizar o seu processo mais central e vital, do qual todos os outros processos dependem: a geração de nova substância vegetal assimilada do cosmo pela ajuda da água, que já vem temperada pelos “nutrientes” do solo. Os nutrientes minerais nada mais são que cofatores, não são protagonistas.

Em outras culturas, os maiores ganhos de produtividade também são obtidos pela irrigação. No tomate a produtividade do irrigado sobe de 1,5 para 6 Kg/m2. No cacau, o irrigado produz 200 arrobas / ha, contra 40 ou 50 do sequeiro. São muitas as culturas que respondem favoravelmente ao aumento da disponibilidade de água, especialmente no trópico/subtrópico.
Então devemos concluir que todo cultivo tropical deve ser irrigado? Não necessariamente! Sim para técnicas que ampliam a residência de água no sistema Podemos regenerar os processos de fornecimento natural de água. Todo cultivo regenerativo deveria ser inserido num organismo agro-florestal configurado para favorecer seu conforto fisiológico, para otimizar sua fotossíntese, equalizando sua transpiração. O OAF deve primar por captar e poupar água, deve configurar sistemas de produção que promovam o incremento na residência d’água, por:
– Dobrar o teor de húmus, espessando a camada húmica do solo;
– Ampliar a capacidade de infiltração de água em até 50%;
– Ampliar a capacidade de retenção de água em até 80%;
– Instalar faixas quebra-ventos e fornecedoras de MRF em proporções comerciais;
– Praticar cobertura viva e morta do solo, em duas estações de adubação;
– Praticar os poli-cultivos para otimizar a atividade fotossintética comercial.
Um OAF é mais que um sistema agroflorestal, é mais complexo e flexível. Vai além também da permacultura, pois é estruturado para produção econômica de alimentos. Mais adiante veremos alguns modelos e estas propostas se tornarão mais concretas.

12. Como surge o conforto fisiológico?
E o que é fisiologia de plantas, de um ponto de vista goetheanistico? A resposta poderá surpreender a muitos, pois a fisiologia de uma planta não está delimitada em seu corpo físico. E plantas só existem no plural, plantas vivem em associações. A fisiologia é expressão de seu campo vital (homeopatia, medicina antroposófica), cujas atividades sustentam seus processos essenciais, que se conecta e interage com outros campos vitais ao seu redor. Podemos dizer que a fisiologia é o conjunto de processos vitais da planta nesta trama interativa, regidos pela paisagem local (ou OAF), benéficos para ela mesma e para suas companheiras, para o solo e o clima. Tudo isto junto forma um imenso mosaico de organismos menores, que se multiplica pelas paisagens. Sim, plantas são capazes de formar solo e de influenciar e sustentar o clima, ambos fazem parte essencial do universo vegetal, configurando a biosfera. E quando uma planta está fisiologicamente confortável, ela dá o melhor de sí, combinando boa produtividade com alta fitossanidade. Ela expressa seu conforto fisiológico em folhas bem-formadas, verdejantes e íntegras, auto-protegidas, sem permitir o desenvolvimento exagerado de competidores (pragas e doenças), nada que possa ir além de sua cota específica e natural. Assim acontece nas matas tropicais, em toda vegetação nativa onde encontramos tão somente plantas verdejantes, produtivas e saudáveis. Assim também acontece no OAF regenerativo.

Por outro lado, se uma planta está fisiologicamente desconfortável, ela o demonstra no tamanho exagerado ou diminuto de suas folhas, atraindo pragas e doenças, não consegue completar o seu ciclo sem as muletas dos chamados fito-protetores, sejam eles agrotóxicos ou biocidas naturais. Neste caso, as adubações, apesar de promoverem a produtividade, apenas pioram o quadro de desequilíbrio fisiológico, pois aceleram o crescimento da planta pela raiz, quando, pela copa em desconforto, ela deveria crescer menos, precisaria se encolher. Vamos examinar dois exemplos em que o desconforto / conforto ficam evidentes:

Primeiro olhemos para o cultivo de citrus, para os plantios de laranja orgânica no estado de São Paulo. Após uma euforia inicial, no fim da década de 90, a área convertida de laranja orgânica foi crescendo até 2005, para em seguida diminuir avassaladoramente, pois a troca dos adubos químicos pelos orgânicos, e dos agrotóxicos por fito-protetores naturais, não foi suficiente para dar sustentação aos pomares, que sucumbiram a doenças e pragas terminais do mesmo modo que os convencionais. E qual o motivo? Um absoluto desconforto fisiológico das plantas cítricas, causado pela combinação de: aquecimento global e local X exposição exagerada ao sol X secamento pelo vento X situação agravada pelo crescimento acelerado provocado pelas adubações orgânicas, um exagero de estercos e composto orgânico, gerando plantações “obesas” e fisiologicamente desalinhadas.

Por outro lado, um exemplo clássico de respeito ao conforto fisiológico, que pode ser observado em diversas regiões do Brasil, é o cultivo do café, convencional/orgânico/biodinâmico, mas arborizado, ou sombreado. Como sabemos, o café é originário da Etiópia, onde evoluiu como planta de sub-bosque, intensamente acompanhado por árvores e arbustos cujas copas filtram a luz, criando um ambiente semi-sombreado. Foi assim que o café se configurou fisiologicamente, com sombra parcial e ar fresco de sub-bosque, é assim que ele se sente fisiologicamente confortável. Oras, quando o café é cultivado a pleno sol, sem sombra e sem companheiras, fica de tal modo desconfortável que se esgota em super-produções de ano, seguidas de fracas produções no ano seguinte, recuperando suas reservas pela conhecida bianualidade. Mas quando o cultivamos de modo sombreado, com a dose certa de luz filtrada, muito bem acompanhado por diversas árvores, ele responde ao conforto fisiológico com produções médias e satisfatórias, com menor bi-anualidade, e surpreendentemente superiores à média da produção a pleno sol, apresentando menor custo de combate a pragas e doenças. Isto eu pude conferir em diversas regiões para o Coffea arabica: desde o Paraná, Alta Mogiana, Sul de Minas, Espírito Santo e até em Pernambuco (Taquaritinga do Norte). Observação: no caso do café, o calor é favorável se for em dose menor, vestido de frescor. Cada espécie demanda uma certa dose, em cada região devemos ajustar o dosador biológico, as plantas companheiras e as faixas florestais.

IMAGEM 2 : café sombreado

Isto quer dizer que todo cultivo regenerativo deveria ser sombreado? Claro que não, pois as necessidades são diversas. Mas com certeza, todo cultivo regenerativo pede por plantas companheiras e demanda (fisiologicamente falando) realizar sua produção integrado a um agro-organismo florestal, repleto de recursos, uma mistura bem-bolada de ervas, arbustos, arvoretas e árvores maiores. Mas qual seria, hoje em dia, na paisagem “estépica” da agricultura brasileira, o papel maior das árvores e dos arbustos? É o que vamos examinar a seguir.

13. O papel das árvores nas lavouras e nos pastos

A história recente do Brasil revela que o nosso país-continente já foi coberto por florestas em (quase) toda extensão. A vocação florestal se revela inclusive na caatinga, que apesar de chuvas escassas e irregulares, ainda assim se forma como floresta decídua e aberta.

O corte raso das florestas para instalação de lavouras e criações foi e continua sendo um erro, com terríveis conseqüências ambientais e por cujas consequências econômicas já estamos pagando um preço alto. Sem árvores o vento resseca e desvitaliza a paisagem, aumentando o stresse hídrico das lavouras. A existência de matinhas ou capões, de fragmentos florestais, não melhora muito esta situação. É preciso fazer mais. A re-introdução de árvores plantadas em faixas florestais (filtros-de-ventos), ao redor das lavouras e sobre os pastos, formará células vivas com significativo incremento na residência d’água, trazendo enormes benefícios ecológicos e econômicos, diretamente ao produtor e para toda região. A lavoura produz melhor e o agricultor terá nestas árvores (se houver madeiras nobres, de preferência exóticas) uma poupança, da qual pode sacar sempre que for possível. Em diversos casos as faixas florestais também terão 50% de frutíferas.

Desta forma, o retorno das árvores para as lavouras, em faixas filtra-vento, torna-se um grande promotor do conforto fisiológico, a garantia de uma transpiração mais regular e de uma maior fotossíntese e consequentemente maior produção. Isto mesmo, cercar as lavouras com faixas florestais é uma boa forma de “adubar & nutrir” as lavouras: com água biologicamente útil, água residente e disponível para transpiração e fotossíntese. Ao invés do vento, teremos a brisa, ao invés do ar seco, o ar húmido; a água no solo será mais transpirada do que evaporada e os cultivos traduzirão o maior conforto fisiológico em melhor produção e menor custo fitossanitário. Este efeito é tão forte, que equivale a 1/3 de uma boa irrigação.

IMAGEM 3: o Retorno das Árvores sobre pasto de braquiária

Mesmo sendo assim positivo, cercar as lavouras com faixas florestais ainda não é suficiente. Além de adubarmos com água biologicamente útil, podemos apoiar os cultivos com algo mais, equivalente aos preparados biodinâmicos do modelo europeu. Pois plantas são seres sociais e mutualísticos, ainda mais as tropicais. O agro-organismo precisa ser muito mais plural! Seria possível levarmos para os cultivos a intensa trama de interações biológicas que caracterizam e sustentam as comunidades vegetais naturais do trópico e sub-trópico? É preciso examinar.

14. Aprendendo com os agrupamentos vegetais (poli-cultivos)

Os poli-cultivos nada mais são do que o agrupamento de diversas espécies produtivas na mesma lavoura, segundo o critério da vantagem mútua. Milho com feijão, Mandioca com arroz, Banana com batata-doce, formam pequenas comunidades em que o resultado colhido é fruto da sinergia: 1+1 = 3. Devemos nos perguntar por que, para aprender com a prática secular de pequenos agricultores, os antigos, os caboclos, herdeiros de uma sabedoria afro-asiatico-indígena pouco respeitada.

Olhemos o consórcio de milho com feijão. Se plantarmos 2 ha de consórcio, ele produzirá de 20 a 50% a mais do que 1 ha de milho + 1 ha de feijão. Por que isto é assim? Por que tem dado certo nas mais variadas regiões, sempre um pouco modificado, mas sempre valendo a pena?

Não basta dizer que um deles pouco atrapalha o outro. Isto se pode dizer de dois objetos inanimados, como de uma cômoda que pouco atrapalha o armário que está ao seu lado. Mas uma fileira de milho interage vivamente com outra de feijão, além de não se atrapalharem, eles se ajudam. Vejamos como: o milho agradece a cobertura do solo proporcionada pelo feijão, agradece o abafamento que o feijão exerce sobre o mato, e aprecia quando ele lhe cede algum nitrogênio fixado em suas raízes (por ser leguminosa). Já o feijão vive bem na sombra rala da copa do milho, aprecia seu efeito corta-vento e se protege de certas pragas que são repelidas pelo milho. Ambos vivem em conforto maior deste modo associados do que solteiros, como num bom casamento, um pequeno universo em sí.

Uma simples comunidade de duas espécies se revela como “dupla dinâmica”, lembrando os complexos organismos florestais; o que dizer do policultivo de três, quatro ou mais espécies? Eles existem e são surpreendentemente eficientes. De fato há diversos níveis de interação. Desde a integração dos sistemas radiculares (conjunto designado por Rudolf Steiner como ‘mingau de raízes’), passando pelo filtramento da luz, do sombreamento do solo, até a quebra do vento e a atração de diferentes animais. Juntos, milho com feijão com mandioca, apenas para citar um exemplo, formam um organismo mutualisticamente dinâmico.

IMAGEM 4: consórcio milho com feijão

Oras, se esta interação é benéfica a ponto de melhorar a produtividade (colheita por unidade de área) e a fitossanidade, então equivale a uma boa adubação vitalizante! Mas não é este o efeito do composto enriquecido com preparados biodinâmicos? Obteve-se um efeito equivalente ao incremento da vida no solo, estimulou-se as lavouras com forças sutis como a luz filtrada, a brisa suavizada, o sinergismo das vitalidades, causando significativa melhora do alimento produzido. Não é isto que se espera dos preparados?

Vejamos outro exemplo, o plantio da bananeira em linhas duplas, espaçadas 5 a 7 metros umas da outras, e no vão desta rua o cultivo de batata-doce. Este é o consórcio mais eficiente que se conhece, atingindo praticamente o dobro de produção. Se plantarmos 2 ha de banana e batata-doce, eles produzem quase 100% a mais do que solteiros, 1 ha de banana + 1 ha de batata-doce, ao longo dos primeiros anos. Agora os benefícios são tão gritantes, que não temos como negar que estas duas culturas se ajudam mutuamente de modo exemplar, o consórcio pulsa como um só organismo, produzindo frutos e tubérculos de qualidade excepcional.

Este, caros leitores, poderia ser um indicativo para o caminho que nos levará a conceber novos preparados biodinâmicos para o trópico. No item a seguir farei uma tentativa de fundamentar a proposta.

15. Qual seria a natureza desejada para um preparado tropical?

Por muitos anos pensei que deveríamos adaptar os preparados, trocar as espécies temperadas pelas tropicais, os invólucros animais por outros, nativos. Pensei se não era o caso de trocar o carvalho pelo jatobá, a urtiga pelo cansanção… mas … fui tomado de um sentimento de grave equívoco. Não seria assim tão simples, trocar as espécies era pouco, era pobre; me lembrava a troca de insumos; primeiro teríamos que compreender as necessidades diferenciadas dos cultivos tropicais. O que eles pedem?

Despertou um grande interesse pelos poli-cultivos, a combinação sinérgica de diversas culturas, todas companheiras e complementares, praticadas há séculos por pequenos agricultores, que nunca tiveram recursos para investir em adubos tradicionais, em mecanização e irrigação. A confiança deles tornou-se inspiração.

O que era uma suspeita, ao longo de anos de intensa observação e pesquisa foi se tornando uma certeza: os preparados para serem efetivos no trópico precisariam ser viventes, seres vivos, plantas multiplamente atuantes, umas sobre as outras, promovendo produção e saúde, conforto fisiológico e sabor. Deste longo caminho, gostaria de relatar determinada experiência vivida no nordeste brasileiro, em 1992. De visita à agronomia da Universidade Federal de PE perguntei aos catedráticos da fruticultura se o abacaxi tolerava qualquer sombreamento. A resposta foi um não categórico. Descendo à Bahia, visitando as agroflorestas de Ernst Goetsch, em Piraí do Norte, pude constatar: o abacaxi crescia sim e muito bem na meia-sombra da bananeira e da jaqueira, com um detalhe mercadológico preciosíssimo: sua polpa era de sabor suave e inigualável (nunca mais comi igual). E quando feito passa (em secador solar) não escurecia, não caramelizava nem oxidava, mantinha-se clarinho, atingindo excelente cotação de mercado.

IMAGEM 5: policultivo de abacaxi

Esta foi, sem dúvida nenhuma, uma descoberta-chave: assim como os experimentos de aplicação dos preparados em cenoura biodinâmica, repetidos muitas vezes na Alemanha, resultavam em melhor sabor e maior tempo de prateleira (superando quase sempre as cenouras orgânicas), as associações de plantas companheiras selecionadas por Ernst Goetsch em cada situação de talhão, melhoravam igualmente o sabor e a durabilidade do abacaxi. Pelo efeito das plantas companheiras e preparantes. Muito mais tarde, examinando a botânica arquetípica da família do abacaxi, as bromeliáceas, compreendi sua dupla aptidão, de crescerem bem em topo de morro, sobre rochas, completamente expostas às intempéries, mas de serem também as epífitas mais numerosas de certos trechos da mata atlântica, crescendo muito bem na sombra e sob a proteção de gigantescas copas. Descobria também que outras plantas aparentemente adaptadas ao pleno sol, ficavam confortáveis à meia sombra. Além dos tradicionais sombreados feijões, batata-doce e taioba, temos a abóbora, a moranga, o pepino, citrus, café e jaboticaba, além de diversos legumes e tubérculos tropicais e muitas outras plantas que vivem a pleno sol por que nós, agrônomos, não ousamos inovar.

Antes que seja tarde, preciso dizer que não vejo, neste momento, a possibilidade de fixar determinadas plantas como sendo “as plantas” dos preparados tropicais. Um bom exemplo é o café, em certas regiões muito bem acompanhado pela bananeira, em outras pelo abacateiro, em algumas pela palmeira pupunha e em outras ainda pela juçara. Outro exemplo é a abóbora, que pode ser bem acompanhada pelo milho, pela mandioca, pelo quiabo e pelo guandu. Já o Guandu é bem-acompanhado pelo arroz (sequeiro), pelo milho, pela melancia, pelo girassol, pelo abacaxi e pela mandioca. Sem falar da banana, que bem-acompanha os mais diversos cultivos, dos citrus à batata doce, do café às hortaliças folhosas, mas também aprecia ser acompanhada de árvores de porte médio-alto. Plantas tropicais apresentam inúmeros recursos de mútua-ajuda e nos pedem criatividade em cada novo talhão.

E antes de fechar este tópico, algumas linhas para aqueles que opinarem a favor da manutenção de preparados homeopatizados na agricultura biodinâmica tropical. Não sou contra, pois são preciosos, uma grande fonte de inspiração. Por outro lado, a homeopatização é feita para agir sobre os corpos mais sutis de um ser vivo (vide entrevista de Dennis Clocek). Oras, não podemos nos limitar e achar que uma planta não seja capaz de agir com seu corpo vital sobre o vital de outra planta e, atraindo novos animais, que não haja interação de seus campos mais sutis. E que todo conjunto não consiga ser veiculador de forças cósmicas, igualzinho aos preparados europeus. Parece óbvio que sejam, demonstrado pela evolução divina das florestas tropicais. Esta orquestração de corpos sutis agindo uns sobre os outros, me parece hoje o melhor caminho para conduzir o olhar nas pesquisas, buscar soluções para a preparação do agro-ambiente por meio de plantas companheiras e faixas florestais.

16. Estas lavouras podem ser mecanizadas e serão mesmo produtivas?

Sim, em grande parte, lavouras consorciadas podem ser mecanizadas, não sem desafios no controle do mato ou na colheita. Mas esta já é feita manualmente na maioria dos cultivos nobres e não será diferente nos poli-cultivos.

Para responder à questão da produtividade, gostaria de comparar 1 ha de lavoura de soja com 1 ha de frutíferas cercado de araucárias, típicas do clima subtropical de altitude. Permitam que eu o faça em números, usando cifras econômicas. Pois bem, em 1 ha de soja, a perspectiva de uma boa produção é de 3.500 Kg, girando o FB em torno de 4 mil reais/ha/ano.

Em 1 ha de pomar, temos 400 ml de bordadura. Se forem plantadas de 5/5 m, teremos 80 araucárias, cada qual apta a produzir até 40 pinhas por ano e safra, de cada uma se obtendo em média 1 Kg de pinhão. A soma total é de 3.200 Kg de pinhão, cujo valor no atacado poderá passar de 3 reais/ Kg, resultando num total de pelo menos 9.600 reais/ano. Mas … a araucária não demora muitos anos para produzir? Sim, mas neste tempo a lavoura/ pomar terá produzido a sua parte e somaremos a produtividade de ambos: pomar + araucárias, um conjunto muito bom. Se ainda somarmos o valor da madeira (nobre e valorizada), que num manejo sustentável será contínuo, pois prevê a reposição prévia de árvores com DAP mínimo para corte, levará nossa célula agro-florestal, nosso pedacinho de mosaico da paisagem a uma confortável performance econômica. Um time de craques! O Brasil já entrou no apagão de madeiras nobres, passamos por um tempo favorável ao retorno das árvores.

17. Uma agricultura em mosaico, é tudo que o trópico pede

Teremos numa propriedade assim configurada um organismo vivo, dividido em talhões. Cada talhão cercado de faixas florestais, representa uma pedra do mosaico, um órgão do organismo completo. Em cada pedra tudo, mas realmente tudo, do solo à exposição das plantas ao sol, da secura de um lombo à humidade de uma baixada, tudo será único e particular. E em cada pedra deste mosaico teremos que configurar um poli-cultivo, uma comunidade vegetal apta ao mercado, sensata para cada época do ano, produtiva e saudável como já demonstramos ser possível. O conjunto destas pedras, o mosaico completo, será um agro-organismo plural e florestado, uma metamorfose do organismo integrado do modelo europeu. Neste, horta, pomar e lavouras, bosque e gado vivem lado a lado, se sucedem na rotação de cultivos. Na sua metamorfose tropical as frutíferas se misturam às hortaliças e medicinais, aos cereais e tubérculos e as pastagens estão entremeadas à silvicultura. Surgirá uma nova beleza, uma estética que traduz a sensatez do mosaíco. As adubações do solo com adubos verdes, com plantas espontâneas e madeira rameal permanecem, em alguns poucos casos aquelas com composto também. Mas agora a ênfase é outra, pois os cultivos crescem e produzem a partir do conforto fisiológico, do apoio ativo que recebem de seus companheiros, da habilidade assimiladora das comunidades vegetais.

Foi esta visão que nos levou a configurar a ART, agricultura regenerativa tropical. Possamos levar ela ao campo da prática, para agricultura familiar e empreendedora. Possamos desenvolver uma nova estética, gerando paisagens produtivas aptas ao enfrentamento das mudanças climáticas.

Texto: Manfred v. Osterroht manfred.osterroht@gmail.com
Revisado em janeiro 2019.

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